Desde que me entendo como algo, estou presa neste caule.
Nasci assim. Aqui fui nutrida e vi a vida.
Na minha altura, havia uma janela. E, ali, aprendi a entender o mundo.
Moravam duas pessoas naquele pequeno espaço. Logo, tornaram-se três.
Vi as alegrias dos encontros, de como encostavam a boca na face um do outro e enlaçavam seus braços.
Às vezes, tocavam os lábios e ficavam assim por longos minutos.
Eu achava bonito.
Como não tenho boca, desejei uma para experimentar o gosto de tocar outra face ou outra boca.
Vi também eles se aninhando em um espaço que parecia macio, trazendo alimentos para o colo e rindo enquanto comiam.
Esse sentimento eu até entendia: me sentia assim quando as gotas de chuva caiam em mim ou quando um vento suave me balançava e eu encostava nas minhas irmãs.
Ríamos e atraíamos os passarinhos que vinham felizes nos fazer companhia.
Vi também o tempo nublado e escuro. A mulher, quando ficava sozinha, passava um longo tempo me olhando com olhos baixos e opacos. O que será que ela pensava?
Algumas vezes, escutei seus sussurros à lua e logo depois de um deles, apareceu um ser humano muito pequeno, que ela carregou no colo por quase 12 meses.
Senti a solidão dela muitas vezes. E só reconheci esse sentimento, porque quando minhas irmãs completavam seu ciclo de 12 meses e se despediam, eu também sentia solidão.
O desamparo, afinal, é da vida e não só do humano.
Você pode achar estranho eu, uma folha, ser tão complexa, mas eu sou.
Quando chega o verão, sabemos que vamos nos divertir com todos os raios de sol, passarinhos e bichinhos que nos visitam.
A temporada de chuva é uma alegria, porque o sol é certo e vai nos aquecer.
Só que, para existir o verão, tem que existir o inverno. E nele, o vento nos leva para longe da nossa grande mãe. Nunca, nenhuma de nós voltou para contar o que acontece.
Reconheci isso naquela mulher com aquele ser humano pequeno no colo.
O olhar dela mudou, mas não como se o verão tivesse acabado.
Vi responsabilidade e medo do que estava por vir.
Me fez pensativa.
Passei a observar aquela mulher todo dia.
Não que o homem não me interessasse, mas ele não se prendia muito a janela.
Ela sim.
Vi o sorriso mais alegre quando o bebê começou a engatinhar.
E fui aprendendo esses termos com as longas conversas que ela tinha com algo que ela chamava de celular.
Me apeguei a ela.
Desejei ficar mais um ciclo no meu caule para ver o que vinha depois.
Mas, o inverno estava chegando. Minha cor já não era verdinho claro, eu já estava escura.
Sentia que no vento escolhido, iria me desprender e encerrar meu ciclo. Onde eu cairia?
Essa é a grande aventura de se estar viva.
Preciso soltar para que outra nasça no meu lugar.
Me despeço da mulher, do homem e do bebê.
Ergo meus bracinhos de folha e espero meu vento.
Ele vai bater, vou me desprender.
Com sorte, caio em um canteiro de flores.
Ou não.
Já não vai mais importar.



Lindo! 🩷
Que lindo. Parabéns. Subscrevi