Dane-se
estudo de escrita sem objetivo
De manhã a rua parecia sossegada.
Entravam alguns poucos raios de sol pela janela, o café preto soltava uma fumaça delicada e o silêncio só era interrompido por alguns passarinhos que a espiavam da árvore.
Estava feliz.
Mais do que estar feliz, estava em paz.
E isso a deixava tensa.
Não entendia essa contrariedade na própria alma: se reconhecia em paz, mas algo em sua cabeça queria a guerra.
Não totalmente, só um pouquinho.
Uma preocupação, um probleminha para resolver de manhã.
Algo que a tirasse da fumaça delicada do café.
Não tinha.
A vida já tinha caminhado mais de 40 vezes e ela estava em paz.
Não havia morte, problema judicial, atrito para resolver.
Era
ela
com
ela
E isso assustava.
Andou pela casa, sentiu falta do companheiro.
Sentiu saudades de alguém que não via há 8 horas.
Como é bom querer estar com alguém em um espaço.
Então, por que o conflito?
Percebia, que na sua cabeça, pequenos bichinhos iam traçando um caminho de batalha.
Era o passado dele que causava ciúmes.
Não.
Não tinha ciúmes.
A situação atual de trabalho que angustiava?
Não.
Sabia que ia passar.
Foi para a estante da família e lá tampouco descobriu conflito.
Já sabia que não tinha afeto de quem lhe trouxe ao mundo, já sabia as respostas e perguntas que seriam feitas.
Que angustia.
As paredes começaram a se fechar sobre ela.
A fumaça do café tomou a casa.
Ela
começou
a sufocar.
Mergulhou em uma piscina profunda.
Tentou agarrar nas bordas, se debateu, gritou.
Se viu sozinha e resolveu soltar as mãos.
Na paz, também há conflito.
Também é necessário
Aprender
Apreender.
Decidiu que ia cair, que ia cavoucar e assumir que só sabia viver em guerra.
Guerra com ela, com a história, com a vida.
Guerra com os pássaros que cantavam a mesma melodia toda manhã.
Com o bendito café preto e sua fumaça tóxica.
DANE-SE
DA-NE-SE
Parou.
As paredes abriram, a fumaça ficou delicada.
O café estava uma delícia.
Silêncio.
Às vezes, é necessário declarar a guerra para finalizá-la – pensou em silêncio.
Não entendeu nada do que pensou.
Já não entendia mais nada.
dane-se.

